XII Bienal Internacional de Arquitetura
Centro Cultural São Paulo

Curadoria: Vanessa Grossman, Charlotte Malterre-Barthes, Ciro Miguel
2019

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Prologue:

 

common story: three partners buy a ruined house at auction, with the intention of renovating and activating it, but, in the subsequent years, lose the money for such. The owners failure of the owners is multiplied by a real state crisis, and the house—without resale value and no possibility for investment—is abandoned in a kind of limbo. After ten years, the homeowners had lost all hope in the progressively ruining property. 

 

How to create hope in the bankrupt spaces, both financially and subjectively, that commonly define the historic downtown of brazilian cities? 

 

Mouraria 53: Material-everyday

 

Mouraria 53 presents the story of an experiment, which, expanding the category of “everyday materials”, incorporates ‘everyday life’ as material: remains of the routine demolitions of Salvador, a city where nothing gets recycled; but also people who know each other, exchange experiences and produce space. Against architecture as a contextless object, our process is essentially specific: people have names, materials have history. Performing such a construction, designed between chance and intimacy, is necessarily nonlinear; the resulting architecture is not the faithful execution of a drawing but a palimpsest of materials, designs, conversations, mistakes and dreams. To make our experience comprehensible, for this exhibition the house is split into three parts. 

1. In “Exchanges”, the process is presented as a network: the dissolution of authorship among hundreds of actors, from the owners who lend the property in exchange for its recovery to the collective that intervenes the house in exchange for its occupation. Architects donate materials that would otherwise be discarded, teachers take students to participate and learn in the house construction, musicians build in order to use spaces in their presentations, lawyers, psychologists, sociologists, photographers, artists and curators; Individual dreams magnetized in a collective delirium. More than noneconomic exchanges, we show ‘use’ as a space builder—sometimes literally. 

 

2. In “Acts” we deny the tradition of architectures built in complete layers (structure, walls, finishings), which are  never inhabitable until the ‘handing over of keys’. As the Great Wall of China, built in complete stretches of a few kilometres— which placed achievable goals in a task greater than life — we operate in acts. The house is considered to be ‘finished’ at all times; We inhabit the ruin, seeing in it  a palace. Dialogues between use and construction or between space and deposit, as well as material and spatial experiments, are presented here.  ‘Coherent design’ is revealed to be a sum of parts with different management, design and construction models. 

 

3. “Materials” of  both contemporary use—sliding glass shutters used in gourmet balconies—and contemporary disposal— hardwood floors and wooden windows— received by the experiment. We work with paranoia—“all we have” becomes “all we need”—,seeing in the floor a window, in the window a wall, the wall a door and in door a floor; the box in which was brought model is made with through process. By incorporating matter of the city in its body, the house becomes a portrait of it in its neighborhoods, classes, and times. 

 

Separation in acts, exchanges and materials is obviously arbitrary: exchanges trigger acts and acts enable new exchanges. Materials, as much as people, are parts of the network that defines when and how things will be constructed. The project is tactical, always updated from its recent events. 

 

The ruins of downtown do not find  in Mouraria 53 a prototype; our experiment is functional for both owners and collective, but extremely improbable. Perhaps improbability is all that can be learned: incorporating luck; accepting the process, understanding the crisis as a possibility, placing people in architecture and architecture in the city—always unpredictable. Designing with it. 

Prólogo

 

A história é comum: três sócios compram um descuidado imóvel em leilão com intenções de reformá-lo e ativa-lo, mas durante o processo perdem o dinheiro para tal; o fracasso dos donos se soma a uma crise imobiliária e o casarão—sem valor de revenda, sem possibilidade de investimento—é abandonado em uma espécie de limbo. Após dez anos, os proprietários já haviam perdido qualquer esperança com o imóvel, que se arruinava progressivamente.

 

Como criar esperança nos espaços falidos, de modo financeiro e subjetivo, que definem centros antigos do Brasil?

 

Mouraria 53: Cotidiano Material

 

Apresentamos a história de um experimento, que, expandindo a categoria “materiais do dia a dia”, incorpora o ‘dia a dia’ enquanto material: restos das rotineiras demolições de Salvador, uma cidade que não recicla; mas também pessoas que se conhecem, trocam experiências e produzem espaço. Contra a arquitetura enquanto objeto sem contexto, nosso processo é essencialmente específico: pessoas têm nomes, materiais têm história. Executar uma obra assim, entre o acaso e a intimidade, é algo necessariamente não-linear; a arquitetura resultante não é a execução fiel de um desenho e sim um palimpsesto de materiais, projetos, conversas, erros e sonhos. Para tornar a experiência navegável, nesta exposição a casa é dividida em três partes.

1. Em “Trocas” é apresentado o processo como uma rede: a dissolução da autoria entre centenas de atores, dos proprietários que cedem o imóvel em troca da sua recuperação ao coletivo que o reforma pela possibilidade de ocupá-lo. Arquitetos doam materiais que seriam descartados, professores levam alunos para participar e aprender nos mutirões da casa, músicos constroem para posteriormente usar o espaço em suas apresentações, advogados, psicólogos, sociólogos, fotógrafos, artistas e curadores; sonhos individuais magnetizados em um delírio coletivo. Mais do que intercâmbios não-econômicos, mostramos o uso como construtor de espaço—às vezes de modo literal.

 

2. Em “Atos”, negamos a tradição das obras que se constroem em camadas completas (estrutura, vedação, acabamentos) e que, por isso mesmo, nunca estão prontas até a ‘entrega das chaves’. Assim como a Muralha da China, construída em trechos completos de poucos quilômetros—transformando em metas realizáveis uma tarefa maior que a vida—, operamos em atos. A casa é considerada ‘pronta’ em todos os seus momentos; habitamos a ruína e enxergamos nela um palácio. Os diálogos entre uso e obra ou entre espaço e depósito, assim como os experimentos materiais e espaciais, são aqui apresentados. Revelamos o ‘projeto coerente’ como a soma de partes, com diferentes modelos de gestão, desenho e construção. 

 

3. “Materiais”, de uso contemporâneo —vidros para fechamento de varandas gourmet—ou ‘fora de moda’—pisos de taco e janelas de madeira—recebidos pelo projeto. Trabalhamos com eles de modo paranoico—“tudo o que temos” se torna “tudo o que precisamos”—, vemos na porta o piso, no piso a janela, na janela o muro e no muro a porta; a caixa na qual transportamos a maquete é feita segundo esse processo. Ao incorporar a matéria da cidade em seu corpo, a casa se torna um retrato dela—seus bairros, classes e tempos.

A separação, em atos, trocas e materiais, é obviamente arbitrária: trocas desencadeiam atos e atos possibilitam novas trocas. Materiais, tanto quanto pessoas, são partes da rede que define o quando e como as coisas serão construídas. O projeto é tático, sempre atualizado a partir dos acontecimentos recentes. 

 

As ruínas do centro não encontram na Mouraria 53 um protótipo; nosso experimento é funcional para habitantes e proprietários, mas extremamente improvável. Talvez a improbabilidade seja tudo o que se possa aprender: incorporar a sorte; aceitar o processo, entender a crise como possiblidade, colocar as pessoas na arquitetura e a arquitetura na cidade— sempre imprevisível. Projetar com isso.

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